A vontade era de tirar as botas. Mas, olhei em volta e achei que os demais ocupantes do bar não iam gostar nem um pouco. Estava calor e fazia mais de 12 horas que meus pés as ocupavam.
Não iam gostar mesmo. Me apressei então a pedir uma cerveja. Estava finalmente concluído, depois de 10 anos, o meu roteiro. Em 1994 me debrucei em um mapa e tracei meus objetivos: uma viagem pelo pantanal, de motocicleta, passando, obrigatoriamente, por uma série de lugares.
Em janeiro de 95, durante 15 dias, com mais dois companheiros, foi cumprindo o planejado. Mas a chuva, pois choveu todos os quinze dias, e a falta de coragem de um dos parceiros nos deixou longe da cidade de Bonito, ponto obrigatório do meu roteiro. Posteriormente, ficaria ainda mais uma pendência: a Estrada Parque, perto de Corumbá, fechada por causa da chuva. Voltei com duas lacunas no meu mapa, e a certeza de que voltaria para preenchê-las.
Não tardou, pois em setembro de 96, lá estava eu novamente na estrada. Mais preparado, com uma moto melhor e mais potente e, sobretudo, sozinho, pois não queria ninguém desistindo no meio do caminho. Escolhi o mês de setembro, pois nesta época chove menos por lá. Assim, cheguei à cidade de Bonito sem percalços. No primeiro dia em que lá estava, compromissos profissionais me trouxeram de volta à Curitiba. Lá ficava eu devendo ao meu roteiro a Gruta Azul em Bonito e a Estrada Parque, em Corumbá. Os anos se passaram e foram muitos anos desta vez.
Setembro de 2005, 10 anos e meio depois, estou de novo na estrada. Cinco companheiros rodam comigo os 3.264 quilômetros. Alguns certamente sem entender porquê eu voltava pela terceira vez de moto ao Pantanal. Eu tinha o foco naquele mesmo mapa em que tracei meus objetivos no ano de 1994. Desta vez, tudo foi realizado com perfeição. Nada atrapalhou. A cerveja veio e foi merecida.
Fiquei a bebê-la lentamente. Tinha me adiantado e chegado antes dos companheiros e não pude deixar de pensar: quantas vezes no meu trabalho, agi de maneira oposta? Desisti de projetos, idéias, negócios, ao primeiro sintoma de que dificuldades estariam por vir. Não me atrevi a questionar o quanto possa ter perdido com isso, dinheiro ou prazer, pois até a cerveja perderia o bom gosto.
Estabelecer metas, traçar objetivos, escolher as ferramentas, planejar intensamente as ações; isso é fundamental em qualquer atividade, em qualquer função, em qualquer empresa. Mas nada vale se desistirmos na primeira dificuldade, no primeiro contratempo. Persistência é a palavra chave.
Para finalizar: nesta última viagem, ao completar o roteiro a que tinha me proposto, teve igual valia o prazer da viagem de moto, a paisagem do pantanal, a companhia dos amigos, e o indescritível sabor, apesar dos 10 anos, apesar dos dissabores, de ter completado meu roteiro. Nunca desista diante das dificuldades de um projeto, nunca desista antes de atingir seus objetivos. Mesmo que no final você possa vir a saber que nem valeu a pena, é preferível essa certeza do que a eterna dúvida, é preferível a empilhar em sua memória dezenas de coisas inacabadas. Mas para isso é preciso também ter prazer com o trabalho. E isso é assunto para outro dia.
Comentários
Persistência...
Estou atravessando uma fase muito difícil na minha vida, busco respostas para entender o que pode estar errado, até que encontrei palavras sabias neste endereço, foi por aí que comecei a pensar: Será que tudo é desilusão? Será que o prazer paga a pena? O cansaço é fato mas o prazer e o turbilhão de informações tambem são!. E lendo este post cheguei a conclusão de que quando eu olhar para traz, irei agradecer pelo peso da cruz que carreguei e agradecer contudo as vantagens que consegui nesta brilhante vida.
Valeu Abraços!